terça-feira, 19 de junho de 2018

OMS retira a transexualidade da lista de doenças mentais

A Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou de considerar a transexualidade como um transtorno mental e reconheceu o vício em videogames como um distúrbio de comportamento, segundo a nova edição da Classificação Internacional de Doenças (CID), publicada nesta segunda-feira. A última revisão desta norma havia sido feita 28 anos atrás. Durante a última década, especialistas analisaram as informações científicas mais recentes para criar um novo padrão que pudesse ser usado por profissionais da saúde do mundo inteiro. Cada país, no entanto, precisa se adaptar à nova CID, com prazo até 1º. de janeiro de 2022.
Duas pessoas transgênero.
A CID é uma codificação padronizada de todas as doenças, distúrbios, condições e causas de morte. Essa norma serve para que os países obtenham dados estatísticos e epidemiológicos sobre sua situação sanitária e possam planejar programas de acordo com isso.
Até agora, as pessoas que não se identificavam com o sexo que lhes foi atribuído ao nascer eram consideradas doentes mentais pelos principais manuais de diagnóstico, devido à classificação da OMS. As entidades LGTBI passaram anos reivindicando que a transexualidade, que é um transtorno de identidade de gênero, saísse do compartimento das doenças mentais e entrasse no de comportamentos sexuais. Com esta mudança, a OMS mantém a transexualidade dentro da classificação para que uma pessoa possa obter ajuda médica se assim desejar, já que em muitos países o sistema sanitário público ou privado não reembolsa o tratamento se o diagnóstico não estiver na lista.
“Queremos que as pessoas que sofrem dessas condições possam obter assistência médica quando a necessitarem”, explicou o diretor do departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da OMS, Shekhar Saxena. Mas a transexualidade deixou de ser considerada uma doença mental “porque não há evidências de que uma pessoa com um transtorno de identidade de gênero deva ter automaticamente um transtorno mental, embora aconteça muito frequentemente seja acompanhado de ansiedade ou depressão”.
Saxena observou que se uma pessoa transexual é identificada automaticamente como vítima de um transtorno mental, “em muitos países ela é estigmatizada e pode ter reduzidas as chances de procurar ajuda”.
Outra das modificações mais chamativas da nova CID é a inclusão do vício em videogames como doença mental. Este transtorno se caracteriza por um padrão de comportamento de jogo “contínuo ou recorrente”. A OMS estima que entre 2% e 3% dos jogadores de videogames têm um comportamento abusivo, mas salienta que por enquanto faltam dados empíricos.
Saxena esclareceu que o fato de jogar a um game não é nocivo por si só, assim como ingerir álcool também não é, por exemplo. O problema, diz, ocorre quando o consumo é abusivo e altera o comportamento da pessoa. “Se a criança, adolescente ou adulto que joga faz isso sem parar e deixa de sair com seus amigos, deixa de fazer atividades com seus pais, se isola, não estuda, não dorme e só quer jogar, esses são sinais de alerta de que poderia ter um comportamento aditivo e que precisa procurar ajuda”, afirmou Saxena.

Trump separa 2 mil crianças de seus pais. Nem a esposa dele aprovou

Um mural com a imagem de Trump é a primeira vista dentro da Casa Padre, que abriga mais de 1400 crianças na fronteira entre EUA e México | U.S. Department of Health and HuU.S. Department of Health and HuA política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de separar crianças imigrantes de pais que cruzam ilegalmente a fronteira mexicana está sendo amplamente criticada e é questionada até mesmo pela sua esposa, Melania Trump. 

A primeira-dama, ela mesma imigrante, fez uma incursão rara em questões políticas neste domingo (17) com uma declaração de que os EUA devem ser um país que "governa com coração". Por meio de sua porta-voz Stephanie Grisham, ela afirmou que “detesta ver crianças separadas de suas famílias e espera que ambos os lados [republicanos e democratas] possam finalmente se unir para alcançar uma reforma imigratória bem-sucedida”. 
A ex-primeira-dama Laura Bush também foi a público criticar a política migratória. Em uma artigo publicado pelo jornal Washington Post neste final de semana ela escreveu que "essa política de tolerância zero é cruel. É imoral. E isso parte meu coração". “Nosso governo não deve estar no negócio de armazenar crianças em lojas convertidas em abrigos ou fazer planos para colocá-las em barracas no deserto”.
"Essas imagens estranhamente lembram os campos de internação nipo-americanos da Segunda Guerra Mundial, agora considerados como um dos episódios mais vergonhosos da história dos EUA", acrescentou Bush.
As declarações das primeiras-damas ocorrem em um momento em que há uma crescente preocupação quanto ao impacto da política de imigração adotada pela administração Trump. Nesta segunda-feira, em uma declaração publicada nesta segunda-feira (18), o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al Hussein, disse que está profundamente preocupado com a situação. “O pensamento de que qualquer Estado poderia dissuadir os pais [de imigrar ilegalmente aos EUA] ao infligir tais abusos às crianças é inconcebível”, escreveu. 
Em seis semanas, entre abril e maio, quase duas mil crianças foram separadas à força de seus pais, de acordo com o Departamento de Segurança Nacional. 

A explicação do governo

Kirstjen Nielsen, a secretária de Segurança Nacional, foi ao Twitter no final do domingo para tentar esclarecer como a administração está lidando com as crianças imigrantes que não possuem documentação. 
"Não temos uma política de separar as famílias na fronteira. Ponto", tuitou Nielsen - uma declaração que contradiz o presidente. Trump reconheceu que a política existe, mas se recusou a aceitar a responsabilidade por ela, colocando a culpa nos democratas.
“Como eu já disse muitas vezes antes, se você está procurando asilo para sua família, não há razão para infringir a lei e cruzar ilegalmente os portos de entrada", disse ela em uma postagem. Em seguida complementou: "Para aqueles que buscam asilo nos portos de entrada, continuamos a política das administrações anteriores e só separaremos se a criança estiver em perigo, não houver relação de custódia entre membros da ‘família’ ou se o adulto violar uma lei".
Funcionários do governo Trump dizem que a política visa impedir que os imigrantes sem documentação façam a jornada para a fronteira dos EUA com seus filhos. Mas o próprio presidente tem repetidamente culpado os democratas, citando uma lei, sem especificá-la, que ele diz que exige que as crianças sejam tiradas de pais que cruzam a fronteira ilegalmente.
Porém, na Casa Branca ninguém pode citar qual é a lei norte-americana que dita as separações, iniciadas em abril, depois que o procurador-geral Jeff Sessions anunciou "tolerância zero" para travessias ilegais de fronteira. Os adultos detidos depois de atravessarem a fronteira fora de um posto oficial de entrada devem ser presos e processados, de acordo com o decreto de Sessions. Como as crianças não respondem pelo crime, elas não podem ficar junto de seus pais, o que faz com que elas sejam colocadas sob a custódia do governo norte-americano.
Antes desta política ser adotada, famílias que cruzavam a fronteira dos EUA ilegalmente eram submetidas a procedimentos de deportação, que não requerem separação.

A política migratória ‘mais dura’ tem funcionado?

O número de famílias que tentam entrar nos EUA sem documentação diminuiu ligeiramente entre abril e maio, mas em comparação com maio de 2017, houve um aumento de 435%. O número de crianças desacompanhadas apreendidas passou de 4.302 em abril para 6.405 no mês passado, de acordo com dados alfandegários do Departamento de Segurança Nacional. 
Nas duas primeiras semanas da politica de “zero tolerância”, 658 menores - incluindo muitos bebês e menores de três anos - foram separados dos adultos com quem viajavam. Segundo a BBC, em muitos casos as famílias são reunidas depois que os pais são liberados da prisão, entretanto, há relatos de famílias que ficaram separadas por semanas e até meses.
Até o momento os dados são insuficientes para que seja possível alegar consistentemente que a política mais dura esteja diminuindo a imigração ilegal. E também não está claro se isso vai ocorrer porque muitas dessas pessoas vão em direção aos Estados Unidos para tentar escapar de uma realidade muito cruel, de pobreza e violência.

A situação das crianças que ficam separadas de seus pais

Quando seus pais ou adultos que as acompanham são presos, as crianças ficam sob a custódia do Departamento de Saúde e Serviços Humanos e são enviados a parentes, lares adotivos ou abrigos - que estão ficando lotados.
Há cerca de um ano, uma loja do Walmart no Texas foi transformada em abrigo para crianças imigrantes. A Casa Padre, como foi batizada, abriga quase 1.500 crianças sob custódia do governo federal. Críticos da política de Trump temem que os abrigos, incluindo a Casa Padre, não tenham número suficiente de funcionários ou a experiência para ajudar tantas crianças pequenas em circunstâncias tão difíceis.
Segundo a psicóloga da Universidade de Minnesota Megan Gunnar, separar as crianças de seus pais ou cuidadores poderia ter efeitos devastadores a longo prazo em crianças pequenas, que provavelmente desenvolverão o que é chamado de estresse tóxico em seus cérebros, uma vez separadas das pessoas em quem confiam. Esse tipo de trauma emocional pode levar a problemas de saúde, como doenças cardíacas e transtornos por abuso de substâncias.
Cerca de 4.600 profissionais de saúde mental e 90 organizações assinaram uma petição para que o presidente Donald Trump, o procurador-geral Jeff Sessions e vários oficiais eleitos parem com a política de separar as crianças de seus pais. A petição diz: 
"Essas crianças são empurradas para centros de detenção muitas vezes sem um advogado ou advogada e, possivelmente, sem a presença de qualquer adulto que fale sua língua. Queremos que você imagine por um momento como isso seria para uma criança: fugir do lugar que você chamou de casa porque não é seguro e, em seguida, embarcar em uma perigosa viagem para um destino desconhecido, apenas para ser levado para longe daqueles que lhe transmitem segurança, sem entender o que acabou de acontecer com você ou se você vai ver sua família novamente. E que a única coisa que você fez para merecer isso é fazer o que as crianças fazem: ficar perto dos adultos por segurança".

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Na França, mulher fere duas pessoas com estilete aos gritos de 'Alá é grande'

Uma mulher que feriu duas pessoas com um estilete neste domingo (17) em um supermercado no sul da França, aos gritos de "Alá é grande", disse "que foi Alá que a pediu para fazer isso" e "pediu à Polícia para matá-la" - declarou um procurador.
Peritos são vistos dentro de supermercado onde duas pessoas foram feridas a golpes de estilete por uma mulher em La Seyne-sur-Mer, na França, no domingo (17) (Foto: Bertrand Langlois/AFP)"Várias testemunhas relatam que ela disse que foi Alá que a pediu para fazer isso, que eles eram todos hereges e que ela queria que a Polícia a matasse", disse o procurador de Toulon, Bernard Marchal.
Dominada rapidamente no supermercado Leclerc em La Seyne-sur-Mer, perto de Toulon, a mulher de 24 anos ainda era mantida sob custódia no domingo à noite.
Com "problemas psiquiátricos sérios", a autora dos golpes não tinha registros de radicalização na Polícia.
"Na casa dela encontramos apenas um velho Alcorão e uma bandeira argelina, e o computador foi apreendido", informou o procurador.
A revista policial em seu estúdio em um bairro residencial, a apenas alguns minutos do supermercado, terminou neste domingo à noite.
"Ao contrário do que foi dito no início, ela não usava véu, mas uma túnica preta com calça preta, e óculos escuros", afirmou Marchal.
Eram 10h30, quando um cliente que esperava no caixa do supermercado Leclerc do bairro de Sablettes em La Seyne-sur-Mer foi, de repente, atacado e ferido com um estilete, no tórax e na coxa, por uma mulher que se jogou sobre ele, gritando "Alá é grande". Uma caixa que tentou interceder também foi ferida, segundo várias fontes.
Sébastien, um eletricista de Saint-Mandrier que passava no caixa no momento do ataque, "viu um senhor cair no chão, e uma caixa ser agredida", disse ele à imprensa, na saída da delegacia.
Segundo ele, a autora dos golpes, que tinha uma voz "muito doce", "estava em pânico, ela estava com medo, ela não sabia o que estava acontecendo (...) ela não tinha mais força, mais nada...".
"'Por que você fez isso?', eu perguntei a ela, mas ela não respondeu", acrescentou o eletricista.
"O homem ferido segurava a coxa, estava sangrando e disse que 'ela gritou Alá é grande e me fez isso!'. Ela não negou, ela abaixava a cabeça", completou.
Desde 2015, a França sofreu uma onda de atentados radicais que deixou 246 mortos. O último foi um ataque a faca em 12 de maio passado, no centro de Paris.

Frio aumenta em 30% chances de internação por problemas cardíacos

Entre junho e agosto, meses marcados por temperaturas mais frias, as internações nos hospitais públicos da cidade de São Paulo por insuficiência cardíaca e infarto chegam a ser 30% maiores do que no verão. É o que mostra estudo inédito realizado por médicos da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein.
A pesquisa, liderada pelo cardiologista Eduardo Pesaro considerou todas as internações por insuficiência cardíaca (76.474 casos) e infarto agudo do miocárdio (54.561 casos) registradas em 61 hospitais públicos da capital paulista entre janeiro de 2008 e abril de 2015.
Os dados fazem parte do Cadastro Nacional de Saúde, do Sistema Único de Saúde (SUS). Foram consideradas também as temperaturas mínima, máxima e média em cada período ao longo desses sete anos, registradas pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). “Provavelmente isso se dá por fenômenos múltiplos como o frio e a qualidade de ar como principais aspectos de risco. As pessoas que estão em maior risco e que já são doentes, com pressão alta, diabetes, devem teruma atenção especial nesse período e maior controle como tomar corretamente o remédio e medir a pressão”, aconselhou o cardiologista.
A pesquisa mostrou ainda que o número médio de internações por insuficiência cardíaca no inverno foi maior em pacientes com mais de 40 anos. Já as hospitalizações por infarto foram registradas em maior número em pacientes com idade superior a 50 anos. De acordo com o cardiologista, as causas do aumento do risco cardiovascular no inverno não estão diretamente ligadas à queda do ponteiro do termômetro, mas às condições ambientais e socioeconômicas de São Paulo.
“Inverno não significa só frio, mesmo porque em São Paulo ele é ameno, com temperatura média de 18 graus e variação de apenas 5 graus. Ele também significa poluição aumentada, crescimento de epidemias provocadas pelo vírus da gripe, o Influenza, além do tempo seco”, diz Pesaro.

Poluição

Com uma população de quase 12 milhões de habitantes e uma frota de 8,64 milhões de veículos (incluindo caminhões e ônibus), São Paulo fica mais poluída no inverno. A baixa umidade, chuva reduzida e as frequentes inversões térmicas (quando o ar frio é bloqueado por uma camada de ar quente e fica preso perto da superfície) são condições que impedem a dispersão de poluentes como monóxido de carbono (CO), dióxido de nitrogênio (NO²), dióxido de enxofre (SO²) e material particulável inalável (PM10).
Temperatura baixa, pouca umidade e alta poluição contribuem para uma maior incidência de doenças respiratórias e gripe, com o consequente aumento do risco cardiovascular”, explica Pesaro.
Uma das hipóteses levantada no estudo é de que o aumento do risco de infarto e de insuficiência cardíaca no inverno está relacionado às condições socioeconômicas da população. De acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, na região metropolitana de São Paulo, 596.479 casas são consideradas subnormais, como assentamentos irregulares, favelas, invasões, palafitas, comunidades com deficiência na oferta de serviços públicos básicos, como rede de esgoto e tratamento de água, coleta de lixo e energia elétrica. A capital paulista concentra dois terços desse total ou 397.652 lares.
“Em São Paulo, uma população mais desamparada, com casas improvisadas ou sem aquecimento, mais exposta à poluição e ao frio pode apresentar mais risco de terdoenças cardíacas no inverno que uma pessoa que mora em um país de clima temperado, mas está mais protegida por ter calefação na residência e roupas melhores”, diz Pesaro.
Para se proteger, ele recomenda que as pessoas que têm condições, aqueçam bem a casa. “Um aquecedor portátil ajuda em semanas mais extremas de frio. Outra coisa é tratar do vazamento de ar frio por janelas, portas e telhado. E também se agasalhar melhor, pois tudo isso contribui com a proteção, a ideia é não expor ao frio as pessoas que têm maior risco, como idosos e doentes cardiovasculares”.
Ele ainda ressalta a importância da vacinação. “As epidemias virais e as gripes aumentam o risco cardíaco, vacinar-se especialmente nas vésperas do outono e inverno é importante também”.
O que acontece com o coração
O frio faz os vasos sanguíneos se contraírem e eleva a liberação de adrenalina, o que faz subir a pressão arterial. Além disso, o aumento da poluição contribui para doenças respiratórias que sobrecarregam o coração. Já o Influenza (vírus da gripe) é capaz de causar inchaço ou inflamação das coronárias, com a possibilidade de liberar as placas de colesterol nela depositadas. As placas, por sua vez, podem causar bloqueios e interromper o fluxo sanguíneo.
Para Pesaro, o governo precisa investir em políticas públicas que melhorem a qualidade de vida da população. “As pessoas e os governos têm que cuidar melhor daqueles indivíduos em maior risco durante o inverno. Quem tem risco deve regularizar o controle das suas próprias doenças, como por exemplo, pressão alta, que sabemos que aumenta no inverno, lembrar de tomar os remédios, fazer a medida da pressão com periodicidade e tentar não passar frio mesmo dentro de casa”, aconselha.

Após intervenção, número de tiroteios cresceu 36% no RJ

Militares do Exército durante ação na favela Kelson's, em fevereiro deste ano.A Urca é um bairro entre a Baía de Guanabara e o Oceano Atlântico com casas e edifícios baixos, árvores altas e ruas pouco movimentadas. Uma ilha de prosperidade no imenso e por vezes miserável Rio de Janeiro, mas também de segurança: o bairro, localizado na nobre Zona Sul da cidade, abriga várias instituições militares, como um quartel do Exército, a Escola Superior de Guerra e o Instituto Militar de Engenharia, além de possuir uma única entrada e saída. 

Tanta tranquilidade foi interrompida na sexta-feira do dia 8 de junho, quando policiais e traficantes do morro da Babilônia e Chapéu Mangueira, no vizinho bairro do Leme, entraram em confronto. A perseguição aos bandidos fez com que o tiroteio chegasse até a praia Vermelha, na Urca, obrigando o bondinho do Pão de Açúcar a encerrar suas atividades durante umas horas. 
"Os tiros não chegaram até aqui, mas deu para escutá-los bem alto. As pessoas começaram a correr, a se esconder atrás de carro e de árvore... Até policial se escondeu!", diz, entre risadas, o taxista Geraldo. Já a professora universitária Ludmila, moradora do bairro, conta que momentos depois do ocorrido as pessoas, inclusive famílias com carrinhos de bebê, transitavam normalmente pelo local. "Foi um evento isolado, é muito difícil ocorrer alguma coisa aqui. O bairro continua tranquilo", diz.
 Os corpos de sete rapazes mortos pela Polícia Militar foram encontrados pelos bombeiros em zona de mata e a polícia civil trabalha no caso.Tiroteios como este, ocorrido há pouco mais de uma semana, contribuem para a percepção, tanto de moradores como de pessoas de fora, de que a cidade continua violenta, apesar da intervenção federal decretada pelo presidente Michel Temer (MDB) no dia 16 de fevereiro em todo o Estado do Rio de Janeiro. Em balanço apresentado neste sábado, dia em que o decreto presidencial completa quatro meses, o Observatório da Intervenção Federal, vinculado ao Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, da Universidade Cândido Mendes, mostrou que os tiroteios aumentaram 36% durante esse período. 

Os dados são da plataforma de monitoramento Fogo Cruzado, que contabilizou 3.210 tiroteios nos últimos quatro meses, enquanto que nos quatro meses anteriores à intervenção o laboratório registrou 2.355 ocorrências. Em recente entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, a socióloga Silvia Ramos, coordenadora do Observatório, disse: "É evidente que reduzir tiroteios é também aumentar a sensação de segurança. Quando a polícia, no seu dever, em legítima defesa, mata um opositor, é importante que se esclareçam as circunstâncias. As forças de intervenção têm de ser a favor da legalidade".

Mas percepção num território tão vasto e desigual quanto Rio é algo relativo. Para a professora Ludmila, que mora na Urca e transita pela Zona Sul, a presença dos militares no comando da segurança pública fluminense, liderados pelo general interventor Walter Braga Netto, "não mudou nada", inclusive porque acredita que a iniciativa de Temer "tinha um viés eleitoreiro". Já para o taxista Geraldo, que mora na Praça Seca, "o bairro mais perigoso da cidade", localizado na Zona Oeste, a intervenção melhorou seu cotidiano. Em meados de maio, há quase um mês, as Forças Armadas, a Polícia Militar e a Polícia Civil fizeram uma operação no local, onde o tráfico de drogas e a milícia dão as cartas e guerreiam entre si. "Instalaram uma base lá e, desde então, não tem mais tiroteio entre eles. Também já não tem bandido passando na rua de motocicleta com o fuzil pendurado no corpo", explica um satisfeito Geraldo.
A intervenção federal completou quatro meses em meio ao otimismo de alguns, como Geraldo. Mas percorrer as ruas de bairros ricos ou de favelas como a Rocinha ou a Babilônia significa escutar, principalmente, a versão de Ludmila: a de que nada ou pouca coisa mudou. A última pesquisa sobre a opinião a dos moradores da cidade do Rio é do final de março, do instituto Datafolha. Na ocasião, 76% dos cariocas apoiavam a atuação do do Exército, mas 71% também diziam que combate à violência continuava igual após a ida dos militares para as ruas. Naquela ocasião, o noticiário mostrava uma escalada sangrenta no Estado, com o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, tiroteios e chacinas constantes, moradores e policiais morrendo todos os dias.
Dados recentes da Secretaria de Segurança Pública do Rio — apresentados pelo próprio Braga Netto nesta sexta-feira, em evento no Rio — indicam uma melhora em alguns índices nos últimos meses, que ainda assim continuam em níveis alarmantes. As mortes violentas caíram de 636 em março para 575 em maio, uma queda de 9,59%; os roubos de veículos passaram de 5.358 para 4.382 no mesmo período, uma queda de 18,21%; os roubos de carga foram de 917 para 752, uma queda de 17,99%; e os homicídios dolosos, de 503 para 419, uma queda de 16,70%. Os únicos dados que pioraram recentemente são os relativos a homicídios decorrentes de intervenção policial, que subiram de 109 para 142 entre março e maio, um aumento de 30,27%; e a roubos de rua, que subiram de 11.182 para 11.861, um aumento de 6,07%. Especialmente este último dado contribui para uma percepção negativa sobre a segurança do Rio.
Mas se comparamos a soma dos números de março, abril e maio de 2018 com a soma dos números desses mesmos meses em 2017, chegamos a um cenário mais estático: as mortes violentas cresceram 3,7% de um ano para o outro; os homicídios dolosos aumentaram 2,79%; as mortes por confrontos por policiais aumentaram 17,3%; os roubos de veículos caíram apenas 0,06%; os roubos de carga descenderam 16,11%; e os roubos de rua tiveram uma queda de 4,8%. Tanto Braga Netto como o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, argumentaram que o aumento da letalidade se deve ao maior enfrentamento por parte das forças de segurança do Estado. "Começamos a entrar com uma força maior. Num primeiro momento, a marginalidade continuou enfrentando. Por isso, houve o aumento da letalidade. A tendência é diminuir, porque eles não vão continuar enfrentando", disse o general na última quarta-feira, em evento no Rio. Já Jungmann defendeu que o próximo presidente da República, que será eleito em outubro, prossiga com a intervenção federal no ano que vem. Ela está prevista para acabar no dia 31 de dezembro próximo.
Os dados sobre letalidade violenta vêm fazendo com que especialistas da área de segurança pública critiquem a estratégia de enfrentamento, reforçada durante a intervenção. O Observatório da Intervenção Federal vem cobrando, por sua vez, medidas significativas para combater a corrupção policial e mais transparência e prestação de contas à sociedade sobre os custos e os resultados das ações e grandes operações policiais realizadas até o momento. A primeira delas foi feita na Vila Kennedy, uma comunidade na Zona Oeste do Rio, e a mais recente ocorreu no último dia 9 de junho na favela da Rocinha, cujos moradores vem sofrendo com uma escalada da violência policial nos últimos meses. O Observatório destacou uma operação ocorrida no dia 7 de junho em seis favelas de Jacarepaguá. Apesar de ter reunido mais de 5.000 agentes de segurança, a ação resultou em 13 presos, um morto, três pistolas e uma grana apreendida. Em resumo: operações grandes, custos altos, mas resultados fracos.
Também foi só agora, quatro meses após o início da intervenção, que o interventor Braga Netto apresentou ao Governo Federal um documento de 82 páginas que detalha linhas de ação da intervenção. A curto prazo, o plano estratégico defende a redução dos índices de criminalidade e o aumento da percepção de segurança por parte da população. Como visto acima, o sucesso nessas duas frentes tem sido até o momento relativo e aquém das expectativas. Já a longo prazo, defende a reestruturação e fortalecimento das obsoletas instituições policiais, assim como uma maior integração dos órgãos de segurança.
Para que este último pilar da intervenção seja alcançado, Braga Netto depende dos 1,2 bilhão de reais liberados pelo Governo Federal em março, mas enfrenta burocracias para utilizá-lo em aquisições de armamentos, transporte e outros equipamentos. "Desde a data em que o presidente prometeu o recurso, ele chegou. Só que eu não recebo 1,2 bilhão junto com um talão de cheque e saio fazendo. O TCU [Tribunal de Contas da União] está me observando, a mim a as pessoas que trabalham comigo. Já estamos em processo de licitação de aproximadamente 40% dos valores que foram fornecidos, mas eu tenho que seguir especificando, o mais difícil é especificar o material que é comprado", disse o interventor na quinta-feira, segundo noticiou o jornal O Globo. "Nosso planejamento é que aproximadamente em setembro eu tenha concluído ou antecipado as aquisições e aí eu começo um processo de transição e legado", acrescentou.
Enquanto dias melhores não chegam para o Estado do Rio, seus moradores vivem entre a resiliência e o conformismo, entre a expectativa e o pessimismo. Mas no morro da Babilônia, onde começou o tiroteio que chegou até a Urca, há quem se sinta orgulhoso de morar em umas das comunidades mais "tranquilas" do Rio — embora nem tudo seja perfeito e os traficantes se façam presentes no alto do morro. "Moramos em uma das favelas mais calmas da cidade. O que aconteceu na última semana acontece uma vez ou outra, não é frequente", diz o ajudante de pedreiro Lucas, de 22 anos, enquanto busca cartas na associação de moradores. "Os gringos que moram aqui até se assustam, mas quem é cria da favela, como eu, já está acostumado", diz. Um homem ao seu lado acrescenta: "Aqui é tranquilo até demais. Podia ter mais forró, funk, sertanejo, samba...", diz.
Do lado de fora da associação, o resto da favela vive uma tarde de sexta-feira silenciosa e chuvosa, com pouco movimento. Comerciantes e policiais da Unidade de Polícia Pacificadora olham tranquilamente para o que acontece ao seu redor, enquanto moradores sobem e descem as ladeiras que dão acesso às casas e prédios. Não há sinais de violência ou pessoas armadas. As amigas Flávia e Valdete contam, enquanto caminham para casa, que não estavam na Babilônia quando ocorreu o último tiroteio. Apesar elas concordarem que o local onde vivem é de fato tranquilo, também dizem não ver nenhuma melhoria desde a intervenção. "Em situações como essa, de tiroteio, perdemos nosso direito de ir e vir. É chegar em casa, se trancar e não sair", diz Flávia.

domingo, 17 de junho de 2018

Torcer para o Brasil na Copa pode aumentar risco de infarto? Depende, diz a ciência

Torcedores na Holanda, Brasil, Uruguai, Gana, Argentina, Alemanha, Espanha e Paraguai em Copas do Mundo (Foto: Arquivo/Reuters)ciência há muito tempo estuda a relação entre emoções fortes e dano ao coração. Estudos mostram que quem perde um ente querido, por exemplo, tem maior risco de infarto. Mas agora, pesquisas nos últimos anos começaram a verificar que algumas emoções aparentemente menos graves - como um jogo estressante de futebol - também podem ser um gatilho para uma hospitalização por problemas cardíacos.
Em relação ao futebol especificamente, estudos brasileiros já se debruçaram
 sobre essa associação. Um levantamento da USP de Ribeirão Preto mostrou
 que as chances de um infarto nos períodos de realização da Copa é maior
do que em qualquer outra época do ano: o índice de pacientes infartados
nessas épocas cresceu de 4% a 8%.
Outras pesquisas, como as coordenadas pelos cardiologistas Álvaro Avezum, do Instituto Dante Pazzanese, e Nabil Ghorayeb, do Hospital do Coração, também viram que há mais atendimentos relacionados a problemas no coração durante a Copa.
Os especialistas realizaram estudos em 2010, em 2014 e também planejam estudos para 2018. Na Copa de 2014 no Brasil, eles analisaram internações durante vários jogos em oito hospitais no Brasil.
Na pesquisa, cada pessoa que aparecia no pronto-atendimento com sintomas de emergência cardiovascular respondia a um questionário sobre eventos que antecederam os sintomas. A pesquisa era feita um dia antes do jogo, durante a partida e dois dias depois.
"Na Copa de 2014, demonstramos que houve mais atendimentos cardíacos relacionados ao futebol nos dias do jogo do Brasil, mas o mais interessante é que o número foi estatisticamente mais relevante quando a Alemanha jogou contra a Argentina", diz Nabil Ghorayeb.
"O impacto no coração depende da expectativa. Nos jogos do Brasil em 2014, o Neymar tinha se machucado, ficou fora da Copa, e a questão do 7x1 foi mais a surpresa do placar. Não teve tanta procura na emergência em nosso estudo", diz.
"Agora, na final entre Argentina e Alemanha, muitos estavam torcendo contra a Alemanha, e, quando a seleção alemã ganhou o Mundial, o impacto parece ter sido maior."
Os pesquisadores também fizeram um estudo piloto em 2010, nos jogos da África do Sul. "No dia que o Brasil perdeu da Holanda, o número de internações por evento cardiovascular aumentou 28%", diz Ghorayeb.
Pesquisas de fora do Brasil também observaram essa relação. Um estudo alemão publicado no "New England Jornal of Medicine", sobre os jogos da Alemanha em 2006 mostrou que, nos dias em que a Alemanha jogava, houve um aumento 2,66 maior no número de emergências cardíacas: esse dado é maior em homens (3,26); nas mulheres, o aumento foi menor (1,82).
"Ver um jogo de futebol estressante mais que dobra a possibilidade de um evento cardiovascular. Em vista desse risco, principalmente em homens com histórico de doença cardiovascular, medicas preventivas são necessárias", concluíram os pesquisadores do estudo alemão.
Torcedores durante o jogo Brasilx Alemanha durante a Copa de 2014 (Foto: Euricles Macedo)Torcedores durante o jogo Brasilx Alemanha durante a Copa de 2014 (Foto: Euricles Macedo)Torcedores durante o jogo Brasilx Alemanha durante a Copa de 2014 (Foto: Euricles Macedo)

Cuidados e fatores de risco

Nabil Ghorayeb explica que, se o indivíduo já tem algum problema cardiovascular, o risco de ter algum evento durante o jogo aumenta. Ele cita levantamento da FIFA de 2014 que mostrou que duas mortes de torcedores que compareceram ao estádio estavam relacionadas ao coração. Um torcedor argentino e outro português morreram em jogos do Mundial no Brasil. Os dois eram cardiopatas.
O exagero na bebida álcoolica também aumenta o risco, descreve o cardiologista. "Há efeitos colaterais da bebida no coração. Há maior impacto emocional do jogo sob os efeitos do álcool", diz Ghorayabe.
O médico também recomenda que o torcedor com tendência a ficar mais emocionado durante os jogos não assita aos jogos sozinho - e sempre na presença de, pelo menos, mais um adulto.
"Se o torcedor começa a passar mal, precisa ter alguém com a possibilidade de entender o que está acontecendo e tomar as providências", recomenda.
Quem é cardiopata ou tem pressão alta, o especialista recomenda tomar os medicamentos antes da partida. Outro ponto é cortar o cigarro, ou até ser radical e se afastar totalmente da televisão se o torcedor perceber que o estresse está ficando fora do controle.

Tragédias e síndrome do coração partido

A síndrome do coração partido, ou tako-tsubo, ocorre após um grande estresse emocional, como a perda de uma pessoa próxima ou um assalto (Foto: Reprodução/Bem Estar)A síndrome do coração partido, ou tako-tsubo, ocorre após um grande estresse emocional, como a perda de uma pessoa próxima ou um assalto (Foto: Reprodução/Bem Estar)A síndrome do coração partido, ou tako-tsubo, ocorre após um grande estresse emocional, como a perda de uma pessoa próxima ou um assalto (Foto: Reprodução/Bem Estar)
Eventos estressores, de modo geral, abalam o coração. Tem toda uma área da ciência que se dedica especificamente ao assunto, avalia o especialista.
É daí que vem a expressão síndrome de tako-tsubo ou síndrome do coração partido. "Tako-tsubo" é uma analogia a um vaso japonês usado na pesca.
O coração quando abalado por um estresse emocional fica com uma de suas partes (o ventrículo) com forma semelhante a do vaso.
"Estudos em grandes tragédias já demonstraram a correlação entre emoção e dano ao coração. Em grandes catástrofes, também há mortes por eventos cardiovasculares. Isso aconteceu em eventos como a Guerra do Golfo e Furacão Katrina", diz Ghorayeb.