segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Como a tragédia em Mariana abala a Samarco e a mineração

Mariana (MG), depois do acidente
Até a tarde do dia 5 de novembro, a mineradora Samarco desfrutava de prestígio em Mariana, uma das cidades históricas que formam o quadrilátero ferrífero de Minas Gerais. Desde a década de 70, a empresa opera um complexo de minas e usinas de beneficiamento de minério de ferro no município. A Samarco sempre foi bem-vista por ali.
Na crise recente, causada pela queda no preço do minério, ela demitiu apenas 23 dos 1 900 empregados em Mariana — número irrisório para causar impacto na economia local. Neste ano, a prefeitura conseguiu da empresa uma doação de 3 milhões de reais — à parte dos tributos que recolhe ao Fisco do município — para melhorar o abastecimento de água dos 59 000 habitantes.
A Câmara Municipal havia anunciado recentemente uma menção honrosa à Samarco pelo envolvimento com a comunidade. A boa imagem desmoronou com o rompimento da barragem de Fundão e o transbordamento do dique de Santarém, dois depósitos de rejeitos da empresa.
Um mar de lama cobriu o distrito de Bento Rodrigues, causando 11 mortes, 12 desaparecimentos (pelo que se sabia até o dia 17, quando esta edição fechou) e deixando 601 moradores desabrigados. “Estávamos surfando uma onda muito boa”, diz um executivo da companhia que prefere não ser identificado. “Mas agora a Samarco não é mais uma mineradora. Ela se tornou uma empresa de ajuda humanitária. Os funcionários foram dispensados, mas servem como voluntários na tragédia. Levamos um tombo e não sabemos se vamos nos levantar.” 
A dúvida sobre o futuro da Samarco é consequência imediata do acidente, cujas causas estão sob investigação. A empresa, uma parceria meio a meio entre a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, era uma estrela da mineração. Em 2014, o lucro líquido da Samarco foi de 1 bilhão de dólares, gerando um retorno de 57% sobre o capital investido.
A capacidade da mineradora é de 30 milhões de toneladas ao ano — 2% da oferta global. Sua ausência do mercado após o acidente pode fazer o preço do minério de ferro chegar perto de 50 dólares a tonelada, 7,5% acima do patamar atual, segundo estimativa da consultoria Tendências.
Para a Samarco, sobram os custos. A empresa teve 300 milhões de reais do caixa bloqueados e acordou com o Ministério Público mineiro destinar 1 bilhão para reparos emergenciais. A conta não para aí. O Ibama deve aplicar uma multa de 250 milhões.
O maior gasto deve vir com indenizações e a limpeza do rio Doce, transformado numa torrente de lama de 600 quilômetros até o litoral do Espírito Santo. Os cálculos desses custos variam de 2 bilhões de reais, segundo a agência de classificação de risco Fitch, a 14 bilhões, conforme estimativa de uma comissão do Congresso que discute novas regras para a mineração.
A verdade é que não se sabe aonde a conta pode chegar. No mundo desenvolvido, as cifras envolvidas num acidente ambiental de grande porte são enormes. Recentemente, a petroleira britânica BP concordou em pagar uma compensação de 18,7 bilhões de dólares ao governo americano e a cinco estados pelo vazamento no Golfo do México em 2010.
No curto prazo, a Samarco tem condições de arcar com a fatura: conta com 1,1 bilhão de dólares de cobertura de seguros e 2,2 bilhões de reais em caixa. No horizonte da empresa, o próximo grande pagamento de 1 bilhão de dólares, para amortizar sua dívida estimada em 3,7 bilhões, só ocorrerá em 2018. “Além disso, a Vale e a BHP podem fazer aportes e recolher menos dividendos da empresa”, diz Jay Djemal, diretor da Fitch para a América Latina.
Esse cenário é válido se a Samarco reativar logo a exploração. Do ponto de vista técnico, ela pode voltar a operar no ano que vem. O buraco da mina parada é capaz de receber dois anos de rejeitos — o suficiente para o reparo das barragens, que, em média, dura até 18 meses. No entanto, é preciso autorização de órgãos públicos.
No entendimento da Fitch, o processo será menos demorado se for provado que a causa do acidente foi natural, como um abalo sísmico. O imbróglio é se a Samarco for considerada negligente, o que causaria mais comoção popular.
Um relatório do banco Deutsche Bank considera que, na melhor das hipóteses, a empresa retomará a operação em 2019. Na pior, não conseguirá apoio suficiente para reiniciar as atividades e vai parar de vez. Procurada, a diretoria da Samarco não deu entrevista.

Reputação

Uma boa resposta à crise é essencial para restabelecer a relação com a comunidade. Na coletiva de imprensa rea­lizada em 11 de novembro, reuniundo os presidentes Murilo Ferreira, da Vale, Andrew Mackenzie, da BHP Billiton, e Ricardo Vescovi, da Samarco, todos disseram que a empresa só deverá voltar a operar se for esse o desejo da população local.
A Samarco já fez 923 atendimentos psicológicos, forneceu materiais para 300 crianças voltarem às aulas e recolheu espécies de peixes do rio Doce. “Se a resposta continuar rápida, o dano à reputação será reduzido”, diz Ana Luísa Almeida, diretora da consultoria americana Reputation Institute. “Outro ponto que importa é se a causa do acidente foi técnica ou ética. O primeiro caso é mais aceito pela população.”
A postura das controladoras também é importante. Aqui, a Vale deixa a desejar. Um ex-presidente de uma grande mineradora com atuação no Brasil considera que a resposta da BHP foi mais rápida e objetiva do que a da mineradora brasileira — a Vale chegou a alegar que a responsabilidade era apenas da Samarco e que não tem influência em sua operação.
De fato, os diretores da Samarco tinham autonomia para definir medidas, como reuniões mensais com o departamento de segurança para reforçar o tema. “No planejamento de 2015, houve um esforço para cortar custos”, diz o engenheiro Mauro Carvalho, que trabalhou na empresa 27 anos, até junho de 2015. “Mas os investimentos em manutenção das barragens, considerados prioritários, ficaram inalterados.”
Segundo Carvalho, a BHP e a Vale faziam auditorias a cada ano em uma área diferente da Samarco. O acidente deve forçar mudanças na gestão. Numa teleconferência com ana­listas em 16 de novembro, o presidente da BHP, Andrew Mackenzie, disse que é preciso melhorar a governança. “Nós certamente temos uma mina poten­cialmente viável”, afirma Mackenzie. “Desde que possamos encontrar uma maneira de fazer com que os rejeitos sejam descartados com segurança.”
Num cenário de fechamento da Samarco, os moradores de Mariana estariam entre os maiores prejudicados. Perto de um terço da arrecadação do município vem da empresa: são 6 milhões de reais por mês. A atividade de mineração é responsável por 8 de cada 10 reais que entram nos cofres da cidade — a Vale também tem uma operação no município. O restante vem de comércio e turismo.
“Teremos de cortar programas como os de escola em tempo integral e atendimento de médicos na casa das famílias”, diz o prefeito Duarte Júnior, um advogado de 35 anos que assumiu o cargo em junho, depois que o antecessor foi cassado por improbidade administrativa. “Defendemos que, depois de identificada a culpa e de assumida a responsabilidade, a empresa volte a funcionar.”
Independentemente do futuro da Samarco, uma coisa é certa: o acidente deve mexer com todo o setor de mineração, responsável por 4% do produto interno bruto e quase 200 000 empregos. A começar pelo aumento no rigor da fiscalização. Em outubro de 2013, um laudo técnico encomendado pelo Ministério Público de Minas Gerais alertou para o risco de rompimento na área da Samarco porque seus depósitos estão próximos de uma mina da Vale — isso poderia causar processos erosivos e danificar as barragens.
A Samarco argumentou que as estruturas seguem a recomendação da lei para segurança de barragens, de 2010, e que fiscalizações recentes, contratadas por ela própria, não detectaram falhas. “A Samarco seguia a lei”, diz Gilberto Calaes, diretor da consultoria de mineração Condet. “A questão é entender se as fiscalizações estão sendo feitas com qualidade.”
Após o desastre, funcionários do Departamento Nacional de Produção Mineral reclamaram em carta das condições de trabalho: 430 técnicos monitoram 27 000 empreendimentos por amostragem no país — só em Minas são quatro empregados para checar 300 barragens.
Em discussão no Congresso há três anos, um novo marco regulatório prevê mais obrigações legais para as mineradoras, como a formulação de um plano de recuperação de resíduos despejados em barragens, a contratação de seguro ambiental e a destinação de taxas setoriais para elevar 12 vezes o orçamento do Departamento Nacional de Produção Mineral, para 700 milhões de reais.
“Tudo isso deve aumentar as condições e a base legal para a fiscalização”, diz o deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), relator do projeto. Do rastro da destruição causada pelo que já é tido como o maior desastre ambiental do país, espera-se pelo menos que boas lições sejam tiradas para o futuro.