segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Cinco passos necessários para derrotar o 'Estado Islâmico'



Informações dos serviços de inteligência dos EUA são de que militantes passaram de 15 mil há um ano atrás para 30 mil hojeA cidade de Kobani, na Síria, foi alvo de intensos ataques no ano passado

Os bombardeios a posições do grupo extremista muçulmano "Estado Islâmico" na Síria e no Iraque não estão funcionando para enfraquecê-lo. O "EI" não parece mais fraco do que há um ano atrás, quando teve início a campanha aérea, e continua atraindo militantes.
O diagnóstico é de Paul Rogers, professor da Universidade de Bradford e um especialista em segurança global a serviço do Oxford Research Group, um dos mais importantes centros de estudos do mundo sobre conflitos armados.
Em entrevista à BBC, Rogers afirma que o aumento no número de ataques aéreos, em especial após o atentado que matou mais de 120 pessoas em Paris no mês passado, não tem inibido o processo de recrutamento do "EI". Isso apesar das estimativas de militares americanos de que pelo menos 20 mil militantes morreram nos bombardeios.
"Informações dos serviços de inteligência dos EUA são de que o número de militantes que se juntaram ao grupo vindo do exterior era de 15 mil há um ano atrás, mas que agora seria de 30 mil", afirma o especialista.
O sucesso no recrutamento se deve particularmente à habilidade dos "marqueteiros" do "EI" em transformar a intervenção aérea da coalizão liderada pelos americanos em uma agressão de cunho cristão contra o Islã – mesmo quando países muçulmanos como o Qatar estão apoiando as operações. Mas o discurso foi facilitado desde que outros aliados árabes, como a Arábia Saudita, deixaram a coalizão ou agora oferecem apoio bem mais discreto, a exemplo do que fizeram países ocidentais como a Dinamarca e a Bélgica.
Outra ameaça, segundo Rogers, é que o "EI" está abrindo "franquias" em outros países, como Tunísia e Líbia, em vez de apenas consolidar a formação de seu califado na Síria e no Iraque.
Para conter tal crescimento, Rogers diz que há cinco medidas cruciais:
1. Ajuda a refugiados
"A mais urgente medida a ser tomada é prestar assistência para os refugiados em países vizinhos [à Síria e ao Iraque]. Há pelo menos 3 milhões de refugiados na Jordânia, no Líbano e na Turquia e as condições de vida são extremamente complicadas, ainda mais com a chegada do inverno. Essas pessoas precisam de ajuda o mais rápido possível, caso contrário a situação pode criar mais instabilidade. Nessas condições, é muito mais fácil para o "EI" recrutar gente".
2. Conciliação no Iraque
Tensões entre as comunidades xiita e sunita no Iraque e na Síria ajudam o "EI" a se apresentar como uma força legítima defendendo o ramo sunita – especialmente no Iraque, onde a etnia é minoria. "Sendo assim, é preciso persuadir o governo iraquiano [de maioria xiita] a abrir maior diálogo, para evitar que a minoria sunita apoie os militantes.
3. Paz na Líbia
Os conflitos na Líbia estão ajudando a alimentar a instabilidade que sustenta o "EI".
"É preciso reforçar os esforços da ONU em prol de uma transição para a paz na Líbia. Caso contrário, o país continuará como uma ferida aberta", analisa Rogers.
4. Estabilização na Síria
A Guerra Civil na Síria contribui bastante para o recrutamento de militantes pelo "EI".
"É preciso acabar com a guerra civil. Há pequenos sinais de esperança porque a Arábia Saudita e o Irã agora estão envolvidos nas negociações preliminares em Viena, junto com a Rússia e os EUA. Mas é o primeiro passo de uma longa jornada".
O Conselho de Segurança da ONU aprovou na semana passada um plano para a paz no país, mas o futuro do presidente Bashar al Assad continua causando polêmica.
5. Fim da repressão no Egito
Desde o golpe que derrubou o presidente democraticamente eleito Mohammed Morsi, em 2013, o governo militar está reprimindo fortemente protestos islâmicos. "Isso é perigoso e pode ser um novo canal para o 'EI' arrebanhar apoio", explica Rogers.
Em parte do Egito isso já ocorre – a Península do Sinai tem sido alvo de diversos ataques de militantes ligados ao grupo e, recentemente, o atentado a um avião de passageiros russo, que causou a morte de mais de 220 pessoas, teve autoria reivindicada por uma brigada ligada ao 'EI'.